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Como a ESPN colocou mais um prego no caixão da TV a cabo

Texto Por Guilherme Felitti 

Pode ter passado desapercebido na overdose de notícias pós-recesso de Ano Novo, mas vale prestar um pouco mais de atenção no anúncio do Sling TV, o novo serviço de TV por streaming da Dish Network nos Estados Unidos. TV pela internet já é realidade há anos, mas sempre atrelada a uma assinatura de TV a cabo. Quem tem um set-top box como Roku, Apple TV e afins plugado na TV e já tentou acessar os gadgets com conteúdo norte-americano sempre para na tela que pede que o usuário coloque o nome de usuário e a senha do provedor de TV a cabo, com dezenas listados em uma longa lista.

A grande novidade do Sling TV é que, pela primeira vez, é possível ver TV pela internet sem pagar a tal assinatura do cabo. Por 20 dólares por mês, quem contrata o serviço pode ver 11 canais: ESPN, ESPN2, CNN, Disney Channel, Food Network, HGTV, Travel Channel, TNT e TBS em aparelhos como Amazon Fire TV, Roku e o console Xbox One. O Apple TV, pelo menos por enquanto, não entra.

Tecnicamente, isto é possível há anos, mas a obrigação sempre foi uma exigência das provedoras de TV a cabo, que, sob o risco de verem sua base de usuários despencarem, obrigavam os canais à “venda casada”. O movimento do “cut the cord” vem sendo repetido há anos, mas nunca houve um serviço legal que justificasse alguém insatisfeito com seu provedor a cancelar o cabo. Com o Sling TV e o HBO on the Web, que dará acesso online às séries e filmes do canal, isto muda. O timing para as provedoras de cabo é horrendo: 2013 foi o primeiro ano no qual houve uma queda no número de assinantes. Com as novidades, a queda deve acelerar.

Por que o grande foco aqui é na ESPN? É simples. Na era do vídeo em streaming, on-demand e baixado do torrent, existe um tipo de programação que precisa ser assistido ao vivo: esportes. A ESPN é dona dos direitos dos três campeonatos de maior audiência dos EUA, fechadas com contratos bilionários: a NFL (futebol americano), a NBA (basquete) e a MLB (basebol).

Caso se torne popular a ponto de fazer milhões de clientes cancelarem suas TVs a cabo, o serviço deverá esquentar ainda mais o debate sobre neutralidade da rede nos EUA (e, consequentemente, no resto do mundo). Comcast e Time Warner e Verizon não ficarão nada felizes de ver um serviço que exige muita banda se popularizar sem que eles ganhem nada a mais com isto. O lobby dos provedores de banda larga contra o conceito é nesta direção: sem neutralidade, é possível cobrar mais para quem assina um serviço como o Sling TV ao mesmo tempo em que o próprio serviço de TVs das operadoras é ofertado mais em conta.

Via Tecneira online em Revista Época e Negócios