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Cresce o número de brasileiros que assistem filmes e programas de TV por demanda na internet

Texto por Nelson de Sá e Tássia Kastner, Folha de São Paulo

De uma hora para outra, tem muito para ver na televisão sem passar pela TV paga. Isso nos Estados Unidos, onde até canais tradicionais de séries e filmes, como HBO, seguem a trilha aberta pelo serviço de vídeo por demanda Netflix, bem como a transmissão de esportes, ESPN inclusive.

Mas o Brasil volta a queimar etapas e já avança nas duas maiores frentes de transformação: séries e filmes por demanda e esportes ao vivo.

Uma pesquisa divulgada na quinta (1º) pela Conecta, empresa do Ibope, apontou que um em cada três internautas brasileiros (34%) já assistem a filmes e programas de TV por demanda pelo menos uma vez por semana.

Nos EUA, a crescente oferta de conteúdo televisivo via internet resultou num número inesperado, no segundo trimestre: 600 mil assinantes abandonaram as operadoras de TV paga (cabo e satélite).

No Brasil, o número de assinantes de TV paga vinha crescendo em torno de 30% ao ano, até 2012. Em 2013, o crescimento baixou para 11,3%. Em 2014, para 8,7%. Em 2015, o resultado no primeiro semestre levou a ABTA (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura) a projetar crescimento zero no ano.

“A razão nos parece ser claramente a crise econômica, as pessoas estão apreensivas”, diz o presidente-executivo da ABTA, Oscar Vicente Simões de Oliveira. Ele argumenta que no Brasil a TV paga ainda tem espaço para crescer, em contraste com o mercado maduro dos EUA.

Já para o consultor Juarez Quadros, ex-ministro das Comunicações (governo FHC), os assinantes brasileiros estavam pensando em desativar a TV paga e buscar alternativas via internet antes da crise. “As operadoras tentam manter presença com descontos, mas a desativação continua. Hoje o interesse no pacote é a banda larga.”

SÉRIES & ESPORTES

Em setembro, a Netflix completou quatro anos de Brasil, país que se tornou o quarto maior mercado do serviço, hoje crescendo bem mais fora dos EUA.

É o que vem estimulando as produções próprias em outras línguas, caso de “Narcos”, série sobre o traficante colombiano Pablo Escobar –com “a grande estrela brasileira Wagner Moura”, como destacou o presidente-executivo Reed Hastings ao anunciar o salto global do Netflix no segundo trimestre.

Uma pesquisa divulgada na quinta (1º) pela Conecta, empresa do Ibope, apontou que um em cada três internautas brasileiros (34%) já assistem a filmes e programas de TV por demanda pelo menos uma vez por semana.

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Quando consomem filmes ou programas de TV, 48% preferem assistir na TV, 40% no computador, 9% no smartphone e 4% no tablet. (Via Conecta-i.com)

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Mas é da segunda frente de transformação que vem aquilo que o analista americano Ken Doctor, referência nas mudanças da mídia, avalia como “avanço maior para o consumidor, no Brasil e em outros lugares”: o streaming de esportes.

Desde o dia 15 de setembro, o canal Esporte Interativo apresenta ao vivo pela internet todos os jogos da Liga dos Campeões, com Barcelona, Chelsea, Real Madrid, clubes hoje com torcida no Brasil. São oito transmissões simultâneas, nos dias de jogos.

Para Fábio Medeiros, diretor de conteúdo do canal, assistir a esportes on-line “é uma tendência forte no comportamento do consumidor e já está acontecendo no Brasil”. Abrange desde os serviços ao vivo de NBA (League Pass) e NFL (Game Pass) até os canais pagos tradicionais brasileiros e as operadoras.

Diferentemente desses canais e operadoras, o Esporte Interativo oferece o campeonato via internet, no serviço EI Plus, sem exigir uma assinatura de TV paga.

Isso estaria na origem da resistência das duas maiores operadoras do país, Net e Sky, em colocar o canal na grade. É o que argumenta a Globosat, do Premiere, serviço de futebol ao vivo também pela internet, concorrente do Esporte Interativo, mas que exige a TV paga.

O EI não está sozinho na briga contra Net, Sky e Globo. Neste ano, o controle do canal foi adquirido pela Time Warner e suas transmissões se tornaram a maior atração da Apple TV no país. O console, que conecta internet e televisor e acaba de ganhar uma nova versão, já homologada no Brasil, oferece aplicativos como a Netflix e seu concorrente, o Crackle, além de iTunes, os esportes americanos, YouTube.

Outro equipamento popular por aqui para ligar web e TV, o Chromecast, ganhou nova versão, que “vem aí, só não sabemos a data”, diz o diretor de Parcerias Estratégicas do Google na América Latina, Sérgio Maria. A atual faz pouco mais do que conectar o smartphone ao televisor, enquanto a nova, a exemplo da Apple TV, vem com apps “nativos” como uma Netflix com acesso mais rápido e atenção maior para esportes ao vivo, como a NBA.

ADAPTAÇÃO

Segundo Márcio Carvalho, diretor de marketing da Net, o modelo de negócio da TV paga é estabelecido por quem produz conteúdo. “É o modelo que faz sentido para eles“, diz, acrescentando porém que “é preciso trabalhar para ir adaptando o modelo”.

Uma adaptação que já começou com o Now, serviço da Net que oferece vídeos também on-line, como a Netflix. Ricardo Sanfelice, vice de marketing da Vivo, que tem o serviço Play TV, vai pela mesma linha, mas prevê mudança mais lenta do que nos EUA, porque “aqui não há oferta de banda larga tão abrangente”.

Por enquanto, a atitude da TV paga é mais de resistência do que adaptação. Em agosto, a ABTA atacou publicamente o fato de a Netflix não pagar os mesmos impostos da TV paga. E há duas semanas a Câmara dos Deputados aprovou projeto acrescentando a Netflix à lista dos serviços tributados por ISS.

O relator justificou a proposta dizendo que, enquanto a TV paga recolhe ICMS, o faturamento de “quase R$ 500 milhões” da Netflix não era tributado. Questionada, a Netflix não quis comentar.

Ken Doctor, analista ligado ao Nieman Lab, de Harvard, diz que é preciso atenção com “o potencial estrangulamento de acesso e preços que as empresas de TV paga, banda larga e telefonia móvel visam”. De todo modo, “o poder está se movendo cada vez mais para o público”, para as mãos do consumidor.

Via Folha de São Paulo

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